“Rota Cine MS” Estreia na Comunidade Tia Eva e leva cinema ao público quilombola

Projeto promove acesso à cultura em comunidades tradicionais e emociona moradores com sessão inédita de cinema Primeira edição reuniu moradores após celebração tradicional, a primeira edição do projeto Rota Cine MS Povos Tradicionais transformou o Centro Comunitário da Comunidade Tia Eva em um espaço de encontro, memória e valorização cultural na noite da última quinta-feira […]

Projeto promove acesso à cultura em comunidades tradicionais e emociona moradores com sessão inédita de cinema

Primeira edição reuniu moradores após celebração tradicional, a primeira edição do projeto Rota Cine MS Povos Tradicionais transformou o Centro Comunitário da Comunidade Tia Eva em um espaço de encontro, memória e valorização cultural na noite da última quinta-feira (14).

Logo após o tradicional terço realizado durante o mês de maio em homenagem a São Benedito, moradores da comunidade participaram de uma experiência inédita: assistir a uma sessão de cinema dentro do próprio território quilombola.

Com distribuição de pipoca e refrigerante, a ação exibiu o curta-metragem sul-mato-grossense “As Marias”, produção que retrata a vida, o envelhecimento e as experiências de três irmãs trigêmeas.

O projeto é realizado em parceria entre a Secretaria de Estado da Cidadania e a Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul, levando produções audiovisuais para comunidades tradicionais do Estado.

Projeto busca democratizar acesso à cultura

A proposta do Rota Cine MS Povos Tradicionais nasceu da necessidade de ampliar o acesso cultural em regiões que historicamente enfrentam dificuldades de deslocamento e acesso a equipamentos culturais.

Segundo o subsecretário de Políticas Públicas para Promoção da Igualdade Racial, Deividson Silva, a ideia inicial previa exibições em espaços centrais, mas a realidade das comunidades levou à reformulação do projeto.

“A partir de uma provocação feita dentro da própria comunidade, pensamos: por que não fazer o equipamento chegar até as pessoas? Muitas vezes a locomoção é difícil, especialmente para quem vive em áreas mais afastadas”, afirmou.

Ele destacou ainda que políticas públicas precisam alcançar diretamente os territórios para garantir inclusão e participação social efetiva.

“Quando falamos de política pública, é importante que ela vá até a comunidade, e não que a comunidade precise procurar por ela”, completou.

Sessão emocionou moradores da comunidade

>Seu Borginho descrevendo o que viveu durante sessão, e o quanto projeto é importante para democratizar o acesso ao cinema. (Foto: Paula Maciulevicius/SEC)

Seu Borginho descrevendo o que viveu durante sessão, e o quanto projeto é 
importante parademocratizar o acesso ao cinema.

A exibição provocou emoção entre os moradores da comunidade quilombola, especialmente entre idosos que compartilharam memórias ligadas ao cinema, à convivência familiar e às tradições locais.
Aos 71 anos, o aposentado Antônio Borges, conhecido como Seu Borginho, contou que não frequentava uma sessão de cinema havia cerca de dez anos.
“Tem gente aqui que pode ter certeza que nunca foi ao cinema. E hoje assistiu um filme, teve a oportunidade de apreciar o cinema, comer uma pipoca. Isso é muito importante”, afirmou.
Ele destacou ainda a importância da iniciativa para crianças e jovens da comunidade, muitos dos quais raramente têm acesso a atividades culturais fora do bairro
“Muitas crianças daqui quase não saem da comunidade. Então trazer o filme até aqui mostra outro lado da cultura, que não pode acabar”, declarou.

Filme despertou reflexões sobre ancestralidade e envelhecimento

Após a exibição do curta-metragem, os moradores participaram de uma roda de conversa conduzida pela subsecretária de Políticas Públicas para Pessoa Idosa, Larissa Paraguassu.

Inspirado no projeto Cine Maturidade, desenvolvido desde 2023, o debate abordou temas como envelhecimento, respeito familiar, ancestralidade e memória afetiva.

Seu Borginho relacionou a narrativa do filme às mudanças ocorridas nas famílias ao longo das décadas.

“A formação da família era totalmente diferente do que acontece hoje. Tudo tinha seu tempo. O respeito era muito grande. A palavra das pessoas antigas valia muito”, refletiu.

Segundo ele, o documentário despertou lembranças e reforçou a importância da valorização das gerações mais velhas.

Liderança quilombola destacou força da memória coletiva

>Liderança na comunidade, Vânia Baptista Duarte participou das reflexões na roda de conversa pós-sessão. (Foto: Paula Maciulevicius/SEC)

 Vânia Baptista Duarte participou das reflexões na roda de conversa pós-sessão.

A historiadora e liderança comunitária Vânia Lúcia Baptista Duarte, descendente direta de Tia Eva, também participou da roda de conversa e destacou o impacto emocional provocado pelo filme.
Ela afirmou que a obra dialoga diretamente com a história da própria comunidade quilombola e com experiências compartilhadas por diferentes gerações.
“Algumas coisas permanecem. Quando toca aquela música sertaneja, muitos de nós lembramos das nossas histórias”, afirmou.
Segundo Vânia, o filme retrata não apenas dificuldades, mas também alegria, resistência e o valor das relações familiares construídas ao longo do tempo.

Projeto seguirá para outras comunidades tradicionais

De acordo com os organizadores, o Rota Cine MS Povos Tradicionais continuará percorrendo comunidades quilombolas e indígenas de Mato Grosso do Sul nos próximos meses.

As próximas sessões já têm datas definidas e ocorrerão na Comunidade Quilombola São João Batista, no dia 21 de maio, e na Associação da Comunidade Negra Rural Quilombola Chácara Buriti, no dia 22 de maio.

A proposta é fortalecer o acesso democrático à cultura, estimular o diálogo social e valorizar histórias, memórias e identidades presentes nos territórios tradicionais do Estado.

Além das exibições, o projeto também pretende ampliar rodas de conversa e atividades culturais ligadas à ancestralidade, envelhecimento e pertencimento comunitário.